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Ambra Marques

Escritos de Ambra Marques

78 escritos

meu oceano causal e cotidiano

sonhei com um tsunami, o mar querendo me levar consigo, sabendo que assim como tudo eu também sou impermanente —

corpo que envelhece justamente enquanto se renova, pele que se desfaz para continuar sendo pele

repousando sobre o berçário das águas pois é sonhando que gesto o que ainda não nasceu

cada milissegundo que respiro morrendo incontáveis vezes, e de cada morte nascendo mundos.

ser água por inteira, dilúvios atravessando célula por célula, lembrando o que o corpo não consegue esquecer —

o mar sabe de cor o caminho de volta para casa.

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para quando eu esquecer

espero que não esperem que eu aprenda com meus erros ou me lembre do motivo de não repeti-los, mesmo quando eu mesma me esqueço.

aliás, lembrei agora que eu já tinha decidido fazer um caderno de memórias (um diário), justamente para me obrigar a reler e lembrar do que não devo fazer.

no momento, só consigo me lembrar daquilo que ficou registrado nos poemas: traumas e alguns momentos da minha vida. entre um poema e outro, existem lacunas que também carregam memórias traumáticas. e, entre essas lacunas, há outras situações — muitas relacionadas ao abuso de substâncias e às consequências que elas tiveram — das quais simplesmente não consigo me lembrar.

talvez seja por isso que eu acabe repetindo certos erros. quando a memória das consequências desaparece, o motivo para não fazer de novo desaparece junto.

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hemostasia

dar à linguagemo trabalho que antes cabia ao sangue

escreverpara não perder de vistao instante exatoem que minha mão encostou na canetacomo quem procura um pulso.

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gambito

calça meu tênis. traz água.

há bichos assim, que despertam já inclinados para a necessidade alheia.

aceito. é instintivo, como a água que me lava e atravessa encontrando o declive até minha garganta.

guardei o gesto junto de outros espécimes que ainda não sei a qual família pertencem.

ele sorri. eu também.

a musculatura armazena memórias daquilo que a experiência apagou.

às vezes imagino que todo afeto seja isso, um comportamento preservado de uma lei desconhecida, mais antiga que o nome das coisas.

penso em encomendar um tabuleiro

digo que é pela lógica. a dele.

não mencionei que toda lógica, observada por tempo suficiente, acaba adquirindo hábitos religiosos.

no xadrez não existem coringas

já bastam os que movem peças sem perceber que estão sendo movidos.

os que descobrem viram o tabuleiro. depois a madeira. depois as casas. depois a distância entre uma casa e outra. depois o acordo silencioso.

o cavalo conhece a água, vê primeiro o que ela faz com as casas

quando as margens cedem, já não distinguem

a peça da regra, a regra da crença, a crença da necessidade.

não pergunto que peça ele acha que éalgumas respostas estragam o jogo.

estou limpa há mesesa água invadiu os pulmõeso problema é que agora consigo ver.

dou mais um gole e levanto.

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o gato

o gato observava. bonito e peludo,se espreguiçava com as patasde quem escolheu ser bicho.

nunca humano.nunca.

rolava, brincava, se enroscavaentre as pernas.

o humano sempre agressivo, brincalhão —lutinha com as mãos.o gato gostavase irritavaazunhavagostavase irritava de novo

às vezes o ambiente não era propício.

ele via. único ente a testemunhar.nenhum peso carregava.é um gato.

esgueirava pelos cantos da casaperscrutando de longe elaperdendo o arpressionada contra o muropelo humano favorito.

nada fazia.

soquinhosmurrinhosos olhos secos vidradosnuma brincadeira sem escopo.

cochichosgrunhidosmarradasgalo na cabeçabodes. cabras.

o gato, tranquilo —nunca um bichosempre um humanosempre um homem.

elanão podia não gostarnão podia se irritarsenão mais soquinhosmurrinhosmarradasbodes. cabras.

cabras!

o gato via pássarosirrompendo voo da garganta delaesganada.olhos arregalados, anegadosazulada, sem chorosem poder dizer nada.

lambeu a patacorreu para outros cômodosquando a brincadeiracomeçava a ficarbem diferentee agitada.talvez atrás dos pássaros.

esses humanos sabem brincar?

em outro cômodo,lambeu mais uma veza pata

Rrrrrrrr

ela está sozinha.olhos deitados e pesados.o sal escorrendo litúrgicopela face de quem se adaptara a não fazer barulho ao sangrar.

devo me aproximar? talvez,mas só um pouquinhopra verse tá tudo bem.

abdicou de ser gatopor alguns minutos,foi humano. viu.

lambeu o saldos olhos dela,depois voltoua ser bicho.

nunca humano.nunca.

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geologia da ausência

no altar do gnomo, a putrefação segue um ritoque antecede a memória. outro rito esse, que apodrece o que digere com a paciência de algo muito primordial.

eu o deixei.

o olfato para de medir quando o corpo já habita sua própria ausência.as plantas, nesse intervalo, negociaram sozinhascom o que restava de luz.

uma vela. ossos recolhidoscom o cuidado que se tem por coisas que já cumpriram sua passagem, antecedendo a própria ação.

não interrogo a memóriasobre quem foi ou como fez.talvez o sonho dentro do sonho dentro do ser que me sonha, tenha se encarregado disso.talvez talvez talvez.

tal-vez a chuva marejou com sua urina indiferente.o que ficou era matéria sem pretensão.a forma mais honesta de todas as coisas.

ele chegou.

a água nas mãos dele tinha temperatura de coisa viva, e enquanto o vapor subia com a música,ouvi meu nome pronunciado de um ânguloque meu próprio corpo desconhece.como se alguém tivesse encontradouma janela solitáriano cerne que minha rocha desconhecia.

às vezes sou calcário.

ele não recua; cartografao que a pedra sedimenta,o que a inércia preservasem querer.

e eu dancei.

de algum plano ligeiramente acimado meu próprio corpo,a garganta abriu algo sem taxonomia;as mãos traçaram rotas que não reconheço como minhas mas que, no entanto, me pertencem.

e ele, plateia de uma só, bateu palmas com a convicção de quem assiste ao irrepetível,e sua voz chegou como camada novasobre um afresco que eu pensava encerrado,

algum estrato que havia sedimentadoem silêncio muito anterior a mimfraturou sem aviso e sem consultarminha opinião sobre o assunto.

no altar do gnomo, os ossos já estão limpos.alguém os recolheu sem pressa,com o toque de quem já foi ossoe agora é pedra —acendeu o que a escuridão haviaesquecido de consumir.

não lembro quem o fez.

danço.

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um fio para me tecer amarga

há muito tempo que sentir aversão a pessoas deixou de ser novidade, sobretudo àquelas criaturas diminutas —, bichos de patas trêmulas que se erguem de quatro para dois, pensando que a verticalidade os aproxima de Deus — que se contorcem para caber no próprio buraco, esculpido com as unhas, como quem insiste em morar dentro da própria ferida.

é exaustivo assistir ao teatro da miséria voluntária, esse balé de desalento onde ossos dançantes multiplicam-se em estilhaços quando colapsam, demônios brotando do limiar entre terra e sangue anunciando aquele falso espanto cadavérico, sem lembrar se ainda sou aquilo que atravessa esses ventos mortos em torpor ou se sou apenas travessia.

você oferece um fiapo de luz pra sustentar aquele colar de crânios, e a criatura, coadjuvante de si, imediatamente o transforma em cinzas, puxando o peso de alguma tragédia calcificada, queda que sussurra por Éons. não suportam a leveza; precisam encharcar tudo em melancolia barata. tropeçam na própria sombra até vesti-la, como um espelho negro e ancestral, e ainda assim querem aplausos de quem sequer se fez plateia.

e enquanto ainda engatinhavam, o meu pensar já ecoava ateando fogo com pedregulho, fazendo lume com os dedos e riscando em paredes abissais, mãos calejadas, alma lapidada a ferro quente, o ar preso nas garras de um urso-reflexo de mim, perdida no eu, naquilo que nunca fui, e nunca me lamentava.

não suporto pobres coitados. da última vez que um desses cruzou o meu caminho, deixei que o próprio azar o encontrasse. há coisas que já nascem tortas e condenadas quando o solo é estéril de si mesmo; basta um sopro, e tudo se desintegra sem nenhum aviso.

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Mamãe,

não consigo fazer nada sob pressão, pois isso me incapacita de agir por conta própria.o estímulo traumático da tomada de ação e reação retorna à minha mente e me bloqueia. ele se manifesta no meu cérebro primitivo onde habita meu instinto de sobrevivência, demolindo o mecanismo de defesa dos meus próprios impulsos destrutivos — córtex pré-frontal —, corrompendo minha função executiva.nem mesmo quando coloco pressão sobre mim consigo avançar. fico estagnada.a de(pressão) de uma forma abrangente me aprisiona em um lugar do qual não consigo escapar — como não saber falar não em contextos dolorosos.e tudo dói sem sentir, tudo dói sem a tristeza como catalizador do processo que deveria me movimentar de forma contínua.a ausência de vida é esmagadora e sofrida.mas não é sofrida da forma como deveria ser, então eu preciso sofrer.tenho minhas metas e vou segui-las. só preciso de um pouco mais de paciência.

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àqueles que sucumbiram à vida

que, longe dela, desenterravam-se da cama cada manhã, a pele lívida ainda fundida nos lençóis, e cumpriam o mínimo com a boca cheia de terra, por um amor que não tinha voz naquela distância — o de uma mãe por sua filha

pareciam gestar no útero escuro da selva dois leões de sangue único, roendo a mesma costela. só um podia nascer rei.

e, de alguma forma, após a conquista do paraíso na selva — com as presas que não mais cortavam, a carne que não mais saciava, um cantinho de descanso onde a sombra pesava mais que o Sol — percebia que o leão que fora morto para alcançar o trono era, novamente, seu irmão de sangue mais puro

e que, pelo sangue derramado, esse mesmo sangue que um dia lavara suas feridas, agora pingava das presas, escorria asfixiante pela mandíbula fraturada, e se fundia dolorosamente ao peito.

o leão sentiu o próprio pelo crescer para dentro, a pele comendo a pele, a carne que era dele e não era dele, o sol que aquecia e agora cozinhava. a juba, que deveria crescer como símbolo de força e soberania, tornava-se rígida e caía à medida que se despedaçava, enfraquecida pela debilidade. os pelos queimavam, a pele enrijecia até se carbonizar nas chamas da culpa e da vergonha.

pobre leão,tão irreconhecível, ignóbil e caquético

que até as letras que formaram a estrutura da palavra cinzas foram perdidas —,e das sobras, algo ainda rangia abafado e miúdo no próprio não-ser.

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Abrir escrito sem título

dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos

como o sol encostando nos relevos áridosdas dunas desse céu, que desaguamno oceano azul-gradiente dos teus olhos

viajando ida e volta na retinadesabrochando como pétalas de rosaum reflexo espelhando ummiocárdico horizonte flamejante

vivo, rubro, de dois sóis.

dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos

como aquela foice que amola na ponta da línguaceifando o ar entre as palavrasque se desencontram nas curvas do teu corpoentre os pelos que se arrepiam ao toque

quando me sentes suspirar.

e, de olhos fechados, sinto-me extinguircomo o último expiro do ar que te respiro.

dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos

como quando arrancas da minha voz, pássarospara que o canto seja mais bonito

e, livre, sinto que as penas são apenas a lenhade lares tão distantes e divinos, onde as chamasse dispersam pelas artérias destes membros amarrados, enroscados e dançantes

ferventes como brasa

tal como as luzes vermelhasdas paredes do teu quarto

cautelosamente, formando laços e nós, invisíveis, como armadilhas

mapeando toda a estrutura

para que não se desalinhem epor um tropeço, desabem no caos.

dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos

e eu sei que não os consigo expressar,pois, antes mesmo, antecipo quecongeles as memórias dos meus lábios petrificados

horrendashorrendas e malditas memórias póstumas.

faço esse sacrifício para que, tal como Sísifonão precises carregar o doce peso da minha morte nas costas — pois é explícito que somente eu, e euesteja destinada a carregar este fardo.

eu sei que no meu peito morrem estrelas, e mais estrelasde sentimentos não expressos

mas quando acessares minh’alma e as virespor favor, não digas que as assassinei por pura vaidadenem penses que, como um contador de estrelas eu queira roubá-las todas para mim —

elas aguardam ansiosas a tua chegada.

devora-as da circunferência das pupilas da tua almacomo um buraco negro

e, enfim, diz, no entanto —na hora, agora, e enquanto —me consomes por inteira:

"em qual de nós, minha luz não consegues escapar?"

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Abrir escrito sem título

sim, hoje desejei desistir da vida novamente, mas não pense que foi por tristeza. às vezes, esperar que se importem, respondam, reajam ou reapareçam é exaustante; frustrante, por assim dizer.os gatilhos são frágeis como vidro, e a renúncia só precisa de um pretexto para fazê-los cortantes.

— renúncia afiada

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Abrir escrito sem título

ouvir agrega mais do que falar, e o silêncio é de natureza brutalmente expressiva.

desencontro-me ao observar lábios de fala amarga, destilando termos caquéticos e vazios.

estas orelhas sangram em clamor, enquanto, frustradas, folhas murmuram aos ventos

voo com elas em súplica

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demônios à parte

eu já conversei com alguns demôniosporém, em um círculo arcano — nem tão perto, nem tão longemas próximo o suficientepr'eu poder vigiar seus pasos.

vez ou outra, em trocas de ideiasaté compartilhamos experiências.

admito admirá-los em certo pontopela lábia, pela precisão com que adentram meu círculoremovendo peça por peça, desmembrando laços como se fossem oferendas inefáveis.

eles possuem o dom inato de expurgarvermes do meu recinto que em nada agregariamsem ser necessário algumcomando; só os deixo agir

pois não só de "demônios" são chamadossão astutos, porém ocultos sob mantos erraticamente empoeirados —encharcados com um invólucro de sombras primordiais, tão repugnantes que violam até os éditos das trevas —e seguem o fluxo natural de dilapidação convocando o caos como um rito necessário.

vez ou outra, o ego me sussurra maus presságios:"ser-lhe-ão feitos atos ameaçadores à sua reputação"mas que reputação vale ser zeladapara aqueles que nada me dariam?e será que preciso mesmo de algoalém de um amor que se reverbere?,pois este já tenho, e não mais preciso

e àqueles que não souberam darora, ora, serão ceifados pela tempestadeaté sobrar apenas escombrosde memórias perdidas e súplicas.

veja bem, curiosa serpenteque denota seus charmesentoando rastros fétidos e fantasiosamente apocalípticos

saiba que não sinto, nem faço questãode suas mazelas engenhosasque ameaçam tirar o fôlego em constriçãoassim como as correntesde um destino fadadoonde jaz meu grimório roubado.

as páginas empalidecem teu rostofrívolo, como um prato vazio e rachado tal como teus olhos apagados e fúnebres,selados ao vão de júbilo profanobeirando à degeneração.

foram feitas imposições de mãospara a cristalização pelas regressõesde outrora, que mantenho em sigilonada poético.

até ouço teus ossos rangendocomo a lombada do tomo ao ser abertoe sua pele se transformando em couroornamentando camada por camada

hermeticamente amaldiçoada em sua própria essência —escorrendo entre os dedosonde dedilho, ritmicamentena possessão do verbo.

por ora, projeto, através de um códigoa progressão dessa fagulha esvaecida e martirizada ao oblívio tragando a alma e transformando-a em cinzascomo sacrifício aos verdadeiros reispois só Eles sabem o que fazem com os restosda extensão ignóbil de um artefatocujo verdadeiro dono, nenhum peso carrega e, enquanto incólume, pouco é abalado.

assim, deixo que o mar de kshama inunde meu peito de misericórdiapara que sejas acolhida em pazem um espaço estável, como um temenos psíquico —exceto o diabólico de queda eminente no inferno.

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as pessoas são como estrelas novamente

nessas lacunas, penso que, na medida em que vou desaparecendo, os vejo sucumbindo nos intervalos de minha ausência, em cada batida — eu sou eu sou eu sou —, me pego, hipnotizada, observando estrelas morrendo a anos-luz daqui, onde meus dedos experimentam o lastro desse maço meio tragado que restou.

pois a jornada é solitária, do início ao fim, e as pessoas em que me esbarro são várias partes de mim.

só peço que façam com que meu corpo se despeça e se desfaça, como o vento que rebate no encontro dos desencontros, para que seja de natureza leve —

não como a onda de pensamentos que me afunda pelo impacto e afoga, a cingindo contra o peito meu maior terror.

cingindo com um torniquete, esse coração miserável, derramando alma sobre alma.

sangue sobre sangue.

em um sentindo mais íntimo, almejando a conexão num viés mais eu-tu e menos eu-isso, quiçá, podendo vibrar essas sinapses mais genuinamente. ora ou outra benzendo o diafragma para que provoques um ar mais sagrado, ou seja, mais presente.

íntimo tal como o útero com um desabrochar ecoante, quase que ininterrupto de uma vida.

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Abrir escrito sem título

e ele me disse que meus olhos são como pedras brilhantes que, nuas, desafiariam o amanhecer após o luare que, se eu piscasse, um tiquinho de nada, em milissegundos esvairiam-se as luzes que determinariam os próximos dias de escuridão

— como a curta vida de um relâmpago

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Abrir escrito sem título

a poesia dá deliberadamente ao poeta a capacidade de moldar seres, formas e estruturas conforme a vontade/desejo de potência — bom ou ruim.

por conseguinte, sendo visualizado aos olhos do observador em qualquer que seja o instrumento de experiência, manifestando uma forma quase que etérica de expressão abstrata no tecido da realidade, convocada pelas

— egrégoras

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rape

nua e cândida, como pérola

amaldiçoada e largada

numa quina de um leito

miserável

onde decrépitas almas me cercam

sob um teto em ruínas

indissociável de mim,

caindo aos pedaços.

(in)vadida tal como num sacrifício

nada sacro, digo —, até insidioso — quem dera fosse um sacro-ofício aos deuses —

maldita e gélida

pela dubiedade do

último ato de rebelião

incomensuravelmente impregnada,

novamente, pelas mãos da escuridão.

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abstrato

diários incompletos estão congelados num tempo de sentimentos abissais que se encontram desfigurados ao ler, assim como são as pessoas.

como se bastassem essas pequenas linhas tortas, desfragmentadas na medida em que as escrevo;

pois foi-se o tempo em que minha mente conseguia se separar de meu entorno,

assim como a perspectiva que tenho a graça em olhar pelas tuas janelas,

tentando sufocar aquilo que tenta te matar por dentro.

sei que em algum momento quando morreres assim como eu, não sentirás a necessidade de injuriar esses teus hiatos de sentimentos

de linha em linha,

como algo profano no qual se deita como um peso que nos funde ao mais gélido inferno de Dante, que caminha de forma sorrateira em saudação e respeito a um velho amigo.

sussurros rompidos permanecem cravados nesse museu de ressentimentos que se assentam na tua epiderme, assim como os corpos dissolutos que jazem miúdos empilhados na minha.

eu não consigo me conter em falar palavras e frases que no dia seguinte já me esqueço,

e talvez

tu as esqueças também,

postas nas paredes dessa casa abandonada nas profundezas de um pálido oceano desconhecido.

a escuridão segue alastrando-se pelos meus órgãos de forma a consumir todo sangue que sobrou,

pessoas tornando-se lembranças esquecidas,

sorrisos tornando-se formas abstratas,

e olhares tornando-se dispersos na superfície inóspita onde a carne e as sinapses já não mais habitam,

sugando tudo o que já fui e o que restou,

rendendo-se ao verdadeiro nada que sou.

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aqui, no pós-vida

o desdobramento da realidade faz com queo meu coração pese mais que uma pena,apenas para que eu aprenda a tornaro meu amor mais leve

não por alguma falha,maldição ou castigo

e sim, pelo escárnio ao me veremdolorosamente vendada, enquantome rebato sufocando em sangue.

esse mar vermelhosó abre a passagemenquanto durmo, poissão expressões sutis e sentimentosdesprovidos de medo e de tempo.

olhares que vibram mais que a vozcorpos etéricos mais presentesà comunicação antecedenteveementemente desbravandosons que se manifestam no após –

meras são as desilusões onde me encontroacordadados segredos que abrigo, enquanto amortransbordodas boas memórias que, de outroraesqueço edas palavras que, de-letra em letradesapareço

contudo, enquanto despertasinto que morri, pois o sonhoparece ser mais real que aqui.

a alma se observa adormecidadigladiando interiormenteno mutilar penoso, apenaszarpando epiderme à fora

onde o peso das asascomo de um anjo caído

desabam noagora,

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“e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes.”

é através das sinapses que enxergo o significado das expressões e das palavras

indo além das concepções difundidas e progredindo na medida em que expando, explorando sua permanência estrutural

satanicamente psicografadas nos escombros sintomáticos do meu subconsciente.

são essas mesmas imagens cravadas, que sussurram como lâminas folheadas em busca de verdades antes jamais pronunciadas

afirmando que a lealdade ao próprio irmão, transcende até mesmo o ouro que tanto almeja.

e ainda risco — salientando sobre os bens e aquilo possuis por mérito — que nem mesmo criam raízes em solo fértil, muito menos te definem como indivíduo.

todavia, os castigos provenientes de suas ações e atos infantilizados ao dar de ombros em negação à realidade, é o que te define e onde mora o verdadeiro pecado

por conseguinte, sendo rejeitado pelo próprio universo através da relutância em aceitar que suas lições e disciplinas são repletas de dor,

e que aquilo que tanto repudia é o que mais carece de amor.

conheço os excessos angustiados, ao golpear o peito com autoengano, proclamando que não se importa com nada

sou igualmente indiferente à forma como tuas frívolas conclusões me reduzem à causa

pois, além de tudo o que me ocorreu, e que das cores me deixou desbotada

pela dor, sei onde minha paz reside, e o meu caminho de volta para casa.

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e exclusivamente o Altíssimo detém a sapiência acerca do estado mental do cômico-errante.

seguindo a manada, eles marcham

organizados em fileiras de imagens, posses, máscaras, sorrisos, objetivos, adjetivos e

sem vivacidade alguma, se vendem.

como se uma fachada requintada pudesse disfarçar a vacuidade, transigindo quiméricos pózinhos mágicos dos quais se alimentam

enquanto o valor, ironicamente, escapa até mesmo à sua própria consciência.

vendados pela ambição enquanto o ego diz o que devem fazer ou como devem agir

diante de discursos persuasivos sobre as armadilhas fantasiadas de “regalias do ter e do não sentir”, logo sendo ameaçados pelo tédio de possuir e pela escassez de zelos obstinados.

e dos medos que sentem em ceder ao mínimo de afeto, amor e importância, colidindo-se em amizades e amores líquidos “pelas circunstâncias”.

pois das virtudes perdidas e dos atos que se desumanizam durante a jornada

com minha foice os parto no meio, guiando-os em direção à abismos de paradoxos imanentes

sob olhos arrebatadores, interferindo num destino predestinado àqueles que não veem ou enxergam as conexões intrínsecas à natureza dos homens.

pois meus excessos projetam reflexos que sangram pela sensibilidade às condições iniciais — em efeito borboleta —, de diversas maneiras e formas, abatendo violentamente e sem vingança alguma.

parasitando em diferentes hospedeiros e

manipulando o absurdo e o inevitável, pois

não é pela fé que acredito nessas leis,

mas sim, por observação e experiência.

e me pego, desprevenida, rindo ao vê-los crendo firmemente no acaso raso das condições hipotéticas, rotineiras e

de seus esforços em compreender o que tô fazendo com tudo isso aqui,

na tentativa de expurgar pra fora uma lição e/ou o que sinto, cautelosamente atraindo olhares carinhosamente gentis ou de penitência (?)

logo após eu conseguir desapegar da ideia de importância e aceitar a minha própria

insignificância.

e nisso, não satiricamente, sinto uma vontade gritante em me manter em posição de lótus e de olhos fechados

observando meus risos transformarem-se em sons, piadas de mau gosto perderem a graça, formas-pensamentos tornarem-se nuvens dispersas e –

rostos e pessoas se dissiparem entre si.

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Ouroboros

e ele caiu inoportuno na matéria orgânica, assumindo o posto destes corpos

pesando em densidade correspondente

operando na ponta da língua sons estridentes e arbitrários

“esvazie-se e verá quem lidera”.

perdidas, serão minhas versões nessa lacuna

sedentas, serão as cobiças pelo Sol

e intensas as expansões dos dois polos.

a angústia devorando raios solares em desespero, enquanto a escuridão cumpre suas profecias.

guerras serão decretadas obrigando a busca por um lado. sem inimigos ou aliados.

trincheiras, serão as entrelinhas destes fatos.

perdidos, serão os véus de Maya nesses danos.

o protagonista repousa asfixiado entre os panos.

fendas em leito são criadas das renúncias de outrora

que, por espasmos, se fez em deleite ao nada.

a única constante é o eterno retorno em que rastejo

como serpente ascendente, despindo minha pele em camadas.

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segredos dourados

rasgo o contrato, ímpar

rastejando no chão, procuro vestígios no sangue de como possuir a próxima vítima

unhas arrancadas pela fúria ao tentar abrir a tampa desse esgoto sórdido e maculado

l embaixo tem um baú repleto de ouro e uma coroa com o meu nome ao lado

e um papel escrito com o nome de outras pessoas e seus aniversários

nenhum propósito ritualístico além de números que algum dia achei que eu pudesse fazer uma boa ação ao lembrar e

talvez o faça

mas os números viraram confusões matemáticas.

“17 de janeiro, 1 e 7…”

1, a origem

as 7 maravilhas do mundo

as 7 cores do arco-íris

as 7 chaves de Salomão

as 7 leis herméticas

os 7 pecados capitais

os 7 chakras

os 7 dias da criação

2 + 5 = 7

o sentido da vida.

12 de novembro, o meu aniversário

1, a origem (eu)

2, a dualidade (te)

1 + 2 = a trindade (amo)

a resposta.

e nos versos das minhas linhas mutiladas

vejo somente cortes sem reparo

e lá dentro da carne eu finco o que sinto

manipulando luz e extraindo pra fora palavras encharcadas de —

“você é muito importante para mim”.

me sufocando num mar de sentimentos

essa besta ainda se arrasta aqui dentro

feia e assustadora aos olhos desatentos

talvez eu devesse deixar esse baú de lado

por um tempo.

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fantasma do passado

foi num breve momento preambular do sono que te vi chorando, como uma criança

não consegui abster minhas lágrimas após esses milissegundos epifânicos de gnose

pois consegui ver nitidamente cada detalhe e sentir exatamente tudo.

dias antes eu havia te visto nos meus sonhos pintando uma caveira num quadro

acredite, era lindo

porém, teus olhos atravessaram rúbidos, fixos no fundo da minha alma.

a barba estava grande e o cabelo precisava de um corte, o que nunca me incomodou.

lembro que você tinha talento para arte porém não sentia ânimo de desenhar, e por algum motivo, parou. assim como as poesias.

ao contrário de ti, eu sempre enxergava significado e sinais em tudo

não foi diferente nos meus sonhos.

eu e essa minha tendência obsessiva em decifrar sinais, códigos e significados ocultos

até das coisas que não tinham significado algum e eram puramente fruto da minha imaginação

ou indignação.

ainda continuo vivendo com essas quimeras regularmente, pois já me são bem familiares

é só olhar em volta

o sonho dentro de outro sonho, a vida, o tempo

ou a idealização que criou de mim por muito tempo.

apesar dos meus esforços de cumprir suas instruções de como eu deveria ser e viver a minha vida, eu resisti

reagindo instintivamente ao controle

de forma tão agressiva e imprevisível que

fui me esvaziando numa tentativa de suprimir tudo o que eu era, até não restar mais nada

somente tóxicos sedimentos que se solidificaram num recipiente vazio.

no entanto, essa inquietação já não me afetava, pois à medida que morria, fui aos poucos me purificando nessa dissolução provocada por ti.

hoje, escuto as mesmas vozes que ecoavam em sua mente, com igual intensidade, sarcasmo e crueldade por trás de um raciocínio inegavelmente lógico.

as mesmas vozes que diziam que te levariam para longe de mim, e que logo você iria me perder

pois corrompia tudo o que tocava.

“me deixa ficar, eu amo ela”,

e assim o fizeram.

aposto que você não esperava que eu iria dar um jeito de te alcançar

pois sinto-me cada vez mais próxima desse monstro Minotauro, à cada passo que dou neste labirinto.

aprisionada em dezenas de pessoas que, um dia, já foram como ele.

sendo levada por uma correnteza cármica de vidas passadas que nos conduzirão

inexoravelmente

até a morte.

e assim, vou tecendo este quadro ao teu lado por incontáveis éons, para todo o sempre, porque

“por mais que eu me vire melhor sozinho, sei que o ser humano não consegue viver sem companhia.

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miragem

em qual momento realmente fui uma ameaça ou uma vítima, se todo o cenário que vejo é indicativo de que sou vítima de mim mesma?

até quando me arrancaram a pureza, as cores e o brilho que aqui dentro existiam

e que me faziam viva,

foi como um julgamento pegajoso de que tudo seria a culpa deles e

do porquê de eu ser assim.

mas até minhas reações me pareciam fugir de algo manipulado pelo ambiente

e até no momento que eu não lembro de ter decidido não reagir aos pensamentos e situações que me acometinham, no fundo sabia que poderia

e que

com culpa, sentiria, não é a minha culpa,

mas sem culpa, sinto, é tudo minha culpa.

são milhões aqui dentro:

a vítima e a ameaça

a luz da morte e a desgraça

a liberdade e o véu

assim na terra como no céu

por um caso, sem acaso

eu me pergunto: “quem sou eu?”

“meu nome é Legião, porque somos muitos”,

perdendo tudo o que era meu.

riram de mim através dos meus olhos, esvaíram-se em mim numa longa miragem.

o espelho agora refletido como um silêncio pacífico e irreparável de uma pergunta sem resposta.

viajando internamente de encontro com –

“Deus, arder no fogo e no Sol

não me foi suficiente?

pois ainda me sinto frágil como um vidro

tenho que ter muito cuidado comigo

das coisas que penso, que falo

e que sinto…

a dor aqui já está no limite há algum tempo por tudo o que aconteceu”, falei.

“então caminho de forma cautelosa no campo minado da minha cabeça”.

e Ele respondeu:

“são esses mesmos ruídos que vagam vagarosamente em sua mente, dizendo:

‘sua manipuladora’,

ao próprio alvo que se manipula e estipula

de que Eu sou isso,

em desserviço a esse corpo que te prende e

me apreende dentro de ti”.

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Gênesis

no dia em que tentei

me encontrar,

a terra era somente mar.

porém as ondas

começaram a ficar tão agitadas

pela mágoa de insuficiência que —

como num sopro de potência —,

elas quebraram próximo à costa,

fazendo-me perceber que eu era

somente uma ilha solitária.

desesperada,

busquei no mar respostas

do porquê de eu ser assim,

mas o mar estava muito escuro

para enxergar.

então, tornei-me um peixe

e mergulhei na escuridão do abismo,

onde descobri ter criado em minha volta

um oceano de ilusões.

mas eu ainda queria me encontrar,

pois eu não aceitara ser somente

um ponto em um vasto oceano.

então, me tornei um falcão

e vislumbrei, de longe,

um fragmento do que eu seria

mas ainda me faltava algo.

me transformei

na Estrela da Manhã

e vi o sol iluminando

as Cordilheiras dos Andes,

todas as ilhas,

todos os peixes,

todas as aves e

todo o resto.

finalmente entendi minha complexidade.

“meu horizonte é tão bonito e abundante,

que parece ser um desperdício”, pensei.

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tarde demais

quando finalmenteentendi a brincadeira do bem-me-quere do malmequer,já não havia mais pétalas.

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o alimento dos deuses

assim, como um rato sujovou me esgueirando entreos hiatos alheiosnão era como a toca do coelhoque eu almejava alcançar eram como esgotos vazios sórdidos e pútridos que meus pelos rastejavam pelos verbos lameados dicotômicos e insalubres que eu arranhava com um certo apreço.o desespero desespera a dorde amar o amor

de qualquer formade qualquer jeitoem qualquer leito

e então, com estes olhos cegamente vermelhoseu farejavainebriadas escamas abissais em busca de algo...

ludibriada pelo canto da sereia,me vi rodeada de predadoresnuma armadilha forjadavampirizada e amaldiçoada a vender a minha almaaos falsos deuses que pela vulnerabilidade euinsistia em me converter.

e Eles me disseram,

“só seja submissa, nem hedonista,nem Eros

mas se só tenho o seu amor em troca do seu prazer

o que mais eu poderia ser?

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Abrir escrito sem título

às vezes a gente precisa machucarum pouquinho pra existir o que o amor mata, pois

onde um se entrega, o outro avança o medo afasta o que o amor alcançaaté tive que me manter distante pra não perder as esperançaseu já nem sei quantas vezesmorremos pra existirmosnessa dança.

lembranças.

eu queria nunca ter te conhecido antespois assim evitaríamos muitas coisas, você sabe.

saudades.

passei a ter um apreço pela escuridão senão

não poderia enxergar a luzenquanto você se fazia sombra.

me assombraquevocê era e é, justamente aquilo que eu mais precisava e preciso —

impreciso

como a gota de chuvade um temporal que se tornou tão deíficoquando unida ao oceano

pacífico.

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Abrir escrito sem título

independentemente do que eu tenha feito, eu não deveria ter sido abandonada como o rato sujo e morto que eles enterraram pra esconder o cheiro e a culpa.

eles se enterraram com o rato também.

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Abrir escrito sem título

eu sei que às vezes a machuco quando choro.

sei do desconforto que ela sente, e quando se move irrequieta dentro de mim, mesmo sem entender o porquê disso, daquilo ou de outros “aquilos” raquíticos e“cataráticos” que não me faziam enxergar.

tudo ficou muito escuro e desconfigurado, fazendo me questionar o que era real todos os dias. chegou num ponto em que eu já nem mais sabia.

findei fazendo da minha realidade o meu próprio inferno, e eu, muito seletiva, sempre apontava para a morte achando que era algum tipo de inimiga.

porém acabei amando tanto a morte a ponto de mudar, pois foi ela quem me criou. ela que me mostrou a essência de cada corpo, e que dentro de cada corpo existia um ser.

foi a morte que perdoou todos os meus pecados e que do barro me fez existir.

aos poucos ela foi se tornando aquilo que costumo chamar de deus, que de sua onipresença sempre esteve aqui —, cautelosamente espionando e moldando o maculado — dentro de mim.

e em todos os espaços coléricos em que eu me encontrava, era somente deus que eu enxergava.

talvez por ter visto tanto esse deus, acabei enlouquecendo e o chamando vida.

e, assim, quando a vida chegou ao fim, morri. me tornando aquela coisa que de início eu apontava e julgava, diferenciando de mim. essa morte sem fim.

e eu, vi a vida passando e parando de me dar respostas.

eu a vi se esvaindo em frente aos meus olhos porque, de certa forma, eu não havia valorizado — deixando marcas e rastros sórdidos por onde trafegava —

e fui assassinando lentamente as cores que nela existia, pois eram exatamente em mim que faltavam.

e agora que te perdi, sei que tu jamais voltarias

a afagar esses membros podres e mutilados.

desvencilhei-me dos sons, das cores, das purpurinas azuis, das flores, dos planos, das dores e daquilo que valia a pena lutar.

e me deitei dentre as velas claras deste santuário insólito como um monólito indissolúvel que me invocava cessar,

sendo esquecida pela vida erompendo os laços com as mágoas:

“Violet, prometo nunca mais te machucar”

onde a vela se consume e a chama se apaga.

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Abrir escrito sem título

eu me privo, padeço e desapareçoporque não me sinto digna de escrever-te.

passei a ser uma alma sem luz a guiar

como um frasco de vidro trincado e perdidono meio de um deserto sem lei.

sem deus. sem adeus.

vazando o tempo e o sangue

que eu mesma vendi.

e me observo a evaporar na areia tórridae cristalina do deserto

me afundando movediça, sem forças pr’eu voltar a ser como era antes.

me asfixiando com cada amassar de um grãoque só se multiplica e multiplica, infinitas vezes.

amarguradamente incessante e sem misericórdia.

você não vê, mas ainda continuo ali,

sangrando por toda a eternidade.

porque foi além destas lágrimas

que me deixei derramar.

agora, acovardada, zarpo,à beira de um abismo.

mesmo que esse tempo irrealfaça com que eu aos poucos

desapareça

como uma ampulheta no deserto.

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o Norte está acima

e é como aquela dose lisérgicaque me faz atingir a 7ª dimensão às 4 da manhã, me tornando uma só com o Universo.

onde descubro que o propósito da vida é o amor.

onde na ponta do pé ando a espreitarquase que levitante, o “te trazer para si”.

convocando em direção ao norte do espiral de Fibonacci àquele que se localiza logo acima —, lá no Norte.

onde finalmente consigo sentir a infinitudedo meu vácuo cósmico se transmutando empura consciência.

onde o eu e o você são dissolvidos em Um, quando o ego não mais existe.

onde nada mais importa além dessa unificação.

mas vejo o medo te afastando daquilo que acredita ser desconhecido.

te sinto se separando do meu corpocomo uma concha se despedindoda outra metade,perdendo a preciosa pérolaque logo, logo vai ser usadacomo mercadoria.

essas aves parecem estar gritando em desespero, consegue ouvir?

e até então essa divisão matemática que te deixa tão confuso e acuado de mim —ao ler as numerações exatas da lisergia correlata —,não te faze perceber que se trata só de uma metáfora.

e que aquilo que a gente precisaestá exatamente na nossa frente,no presente momento da nossa existência.

nem passado, nem futuro,somente a longa e eterna presença

viajando anos-luz ao norte —, cujo Norte é você —

implorando para que assimcomo uma estrela polar,você não me deixe morrer.

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o despertar

a verdadeira crença deífica é o conhecimento de si mesmo como um ser inexistente.

e essa inexistência que é o nada, é um amontoado incessante de possibilidades,

tornando assim parte do todo, de tudo o que existe e do próprio infinito.

nós somos essa pequena imensidão, totalmente conectados e interligados.

o que nos faz vivos hoje é o ar que essa pequena, singular e vasta imensidão respira e compartilha, simultaneamente.

nós somos o ar porque precisamos inerentemente dele para existir e viver o aqui e o agora.

assim como somos as árvores, assim como somos as nuvens, assim como somos a terra, assim como somos todas as estrelas, galáxias e espaço. assim como somos o sol, assim como somos um só, assim como somos a lua.

e a ilusão do indivíduo que nos separa.

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perdoem todas as palavras a partir daqui

sim, eu estou sendo realista sobre mim mesma,por que acha que eu me odeio tanto?

não existem mistérios aqui.

minhas mãos e essa calmadescarada,maquiavélica e maquiada queinsiste em ser uma habilidadeinerente a mim,estão manchadas.

não existe alguémque consiga fazertão mal a mimquanto eu mesma faço.

eu também não me vejo maiscomo aqueles sanguessugasque tentam sugar o mínimode carinho possível.

ou como aqueles parasitasque fazem de sua moradaum corpo morto e sem vida.

ele continua sendo aquela quimera ceifadaem frações que me entedia só de pensar em calculare eu, aquela algema que foi roubadae que nem sequer ele pensa em usar.eu ainda me prefiro assim, inútile pior que ele.

meu brilho foi ofuscadodurante estes poucos anos e,eu,não entendo por que ainda confiam em mimou na minha palavra.

quando eu digo que não existemais nada aqui,eles não acreditam e idealizamalgo que um dia já fui —permanecem cegamente ao meu lado —,mesmo que com eles eu já nem me importe mais.

esse relógio de crescimento pessoal,rodae roda,num sentido trigonométrico.porque eu já perdi o horáriohá muito tempo e não mais funciono.

estou atrasada pra vidae as portas do céue do meu destinojá não abrem mais pra mim.

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e, então, a angústia e a saudade aprenderam a falar

é como se eu estivesse caminhando em direção ao nada; indo em busca de algo sem um destino.

e eu só consigo me sentir completa quando não me falta ar, nem espaço, entre o teu corpo e o meu. e segura, quando finca tuas garras às minhas, entrelaçadas.

sinto como se não tivesse nada aqui dentro.e você, fosse a única forma de me fazer voltar à vida.

meu coração se parte a cada minuto que passaporque, assim como eu, o tempo não me é suficiente.

tenho que lidar com o desprazer desse tempo que caminha rápido numa distância longa. e esse deserto desesperador que me faz de ti, sedenta.

e assim é, todo o meu universo gira em torno de ti, por mais que eu tenha aprendido muito bem a fingir que não.

tu caças o meu corpo desprendido quando te sinto penetrar. e eu, cingindo, te esquento comigo desvairada. me devore.

tu fazes de mim tua preia e me deixa provar tuas presas na ponta da língua, cravando tua mandíbula e sugando minhas inseguranças.

deus me é verdadeiramente misericordioso quando minha morte se faz harmônica.

pois clamo seu nome todas as vezes em que tu se inseres em meus hiatos testemunhando meus últimos suspiros.

em verdade, em verdade te digo que tu és a calma que vem limpando essas impurezas enquanto percorre meus campos mais sagrados de realidade,

pois graças ao teu tato violentamente gentil que o meu corpo não mais dissocia, amém.

tudo o que fiz foi por ti, até mesmo a tentativa de me apoiar em algo mais estável pra nunca te largar dos meus braços.

porém tu me és tão precioso a ponto de minhas inseguranças ameaçarem voltar-se contra mim, e o seu descuido de atenção, que me deixa tão enraizada nesse meu-eu-bélico, é o que me faz acreditar que o amor não existe

e que todos esses sentimentossão somente pulsações químicas e neurais que nosso cérebro processa em junção aos fatores ambientais.

mas eu ainda me ligo a ti. e é inevitável fugir desse nosso pacto que faz com que necessitemos um do outro, constantemente.

eu ainda sinto o calor da tua mão e do teu sangue no meu.

ainda sinto, ao fechar os olhos, acariciando os pelos da tua barba como trigona ponta dos dedos. enquanto, deitada na relva, repouso em seu ombro.

de vez em quando eu sonho acordada com isso pra sempre me lembrar.

tu nunca foi essa alma sem vida, pois teus olhos sempre brilhavam quando sorria. e toda vez que eu percebia, eu me apaixonava tanto a ponto de me assustar e tentar não pensar muito sobre.

prometo que tu sempre vai ser tudo isso pra mim. você vai ser o pensamento que faz com que eu não me sinta tão só, pois sempre escuto tua voz aqui. ressoando.

pra ti entrego minha alma, meu coração e tudo isso que faz de mim existente.

sem deixar vestígios de mim em outros lugares porque somente você tem a chave da minha essência.

somente você comanda a minha existência.

somente você faz de mim alguém

na ausência.

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algo foi perdido

fartura de atenção ecarência de amor

é, parece que vivemos por issome questionei por que ele achava que

o mundo

girava em volta dele

e acabei me deparandocom o meu próprio espelho.

sempre a achar que ninguém gosta deleou que gosta demais, nunca o meio-termo.

deixando o espelho um pouco de lado, ele confunde muito simpatia e tentativa de aproximação amigável com “estar a fim”, acabando por ficar sem saber quem gosta dele e de como ele é de verdade, simplesmente por interpretar as pessoas errado.

eu até entendo o porquê de as pessoas se afastarem ou o porquê de ele se ver constantemente como um ser vazio e triste.

e por mais que o entenda em relação ao seu desejo desproporcional por atenção, não ache que sinto pena

(pessoas assim podem ser destrutivas com outras por autoafirmação de seu próprio valor — algo que costumam achar que não têm, pelo vazio de terem perdido algo no decorrer da vida — e ofuscamento de suas fraquezas).

eu gostaria de vê-lo como alguém que eu pudesse escrever poemas sobre, mas não consigo.

seus excessos de carência e indiretas me lembram qualquer jovem de 14 anos frustrado por ter recebido o primeiro “não”.

o que você perdeu que te deixa tão inquieto?

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azul turbulento

tu me tinges pairando em tons frios e

o azul

é a minha cor favorita.

como consegues fazer da minha vida tão cheia de corse aqui chovee a nuvem é tão cinza?!

não sei se é porque te enxergo no escuroou adormeço com o seu espectro.

ou se no teu vazio eu entro e me cubroe me amorteço com os teus restos.

eu sigo escalando os recifesporque nesse mar de angústiaos corais não fazem mais sentido.

e o desejo de te ter como amigoé uma busca incessantede um tesouro perdido.

então eu vou em busca de um subterfúgio,pois o frio vai findar me congelando aqui.

quando menos espero, me perco e não fujoporque eu não tenho mais para onde ir.

finjo que esqueço purpurinas azuispra você me achar e não me deixar ir.

as ondas do mar me puxam de voltae a culpa não é sua

sou só eu

que-não-me-deixo

partir

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etéreo

sinto-me aquecendo aos poucosinventando teus braçosenvoltos como um ninho

teus dedos recitandocada versículo sagrado

consagrando

tépidos fragmentosdestas páginas

folheando com salivana ponta dos dedos

o meu corpo

perdoandominh’alma lasciva

e minha demasiadae inconcebíveladoração por deuses

não me aborreçonem minhas fraquezas nego

prossigo e me curvo de joelhosporque é para ti que eu rezo

quão etéreo, cândidoe deleitososerão tuas bençãos.

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übermensch

de onde vieram estas sensações herméticas quase esquecidas?

os vestígios dos dias contados se tornaram infinidades agora,

e o maldito pássaro aprendeu a enxergar a beleza nas coisas e no voo. ele voou de volta pra mim também;

talvez quisesse ajuda.

tudo volta, fica e permanece.

por que sou eu que não me vejo mais aqui?

me assisto indo além-do-homem porque

não existe mais espaço

para estas falsas esperanças,

assim como os deuses que criamos.

memórias me fitam, rindo de volta

como se tudo fosse uma piada.

talvez tudo fosse uma piada.assim como eu,

o pássaro,

os dias contados

e

você, leitor.

por fim,

é na beleza das penas e

dos vestígios da terra,

que se fez o homem.

nessa incomensurável

e constante irrealidade.

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quando tudo parece estar bem

cansada daquilo que me fez acreditarnessa insuficiênciade ser,que me foi depositadoque nem mácula.

como uma sinaque me curva turva,pois sou lenta demaispara perceber o rubor derramando entre as frestas dessa parede emadeirada.

desgraçada

em me manter adaptada,mesmo com esse gélidoolhar...

e essa insistência em pensarque é uma praga corrompidae que daqui em diantelogo vai esfriar

por ter tido a alma sugadaque de tão fracaenfraquecea única coisa real que se deita por cima protegendo o precioso e o abominável.

não aquela quimera ceifadaem frações nas profundezasneurastênicas e desgastantesdo teu universo.

que se põe em cada falaem cada atoem cada gesto

assinandoaos poucoso infactível.

depois das 17h, o sol se põe,e, à noite, tudo vira cinzase se esvai miúdo e acanhadono escuro.

é bom te ter de volta.

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apatia

atravessou a minha alma erasgou no peito o trago do que seria o meu único grito ofegante.

porque essa dor me causa tão familiaridade em meus espaços inóspitos de realidade.

justificando os atos escorados num só único ponto de apoio invisível.

dedos engatilhando sem munição no que sequer existe

mirando certo no alvo errado.

juro que não consigo entender de onde vem a empatia de alguém que não sabe pedirperdão

diz que as minhas tristezas e paranoias foram todas em vãosem nenhum ato de dignidade.

se te machuca me ver assim, porque insiste em me machucar mesmo com o ácido percorrendo pelas tuas conexões neurais

na tentativa de curar essa ferida incicatrizável?

cronicamente tão irreparáveis quanto o meu próprio vazio crônico dissociável.

tuas cores só passam a existir sob efeitos químicos,

mas a química dentro de ti não fica como a bala que jaz infeccionada em mim.

pressione outra vez o gatilho e espere que essa bala atravesse o meu corpo da mesma forma que o ácido bate e vai embora;esperando que eu veja a bala como sementee espere nascer uma flor utopista e inclemente.

me espanca e diz que me ama

me beija e diz que “me veja”

me almejame matame fecha

me sufocame afaga

e me deixa.

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Abrir escrito sem título

caminho por estradassempre muito vaziasou muito movimentadas,nunca o meio-termo.às vezes sou arrastada pelo asfalto,mas a vida seria muito simplesse o caos não gritasse tão alto.

eu ainda me vejo ali,

— bem no centro.

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vestígios dos dias contados

faltam 12 dias pros meus 19 anosno dia 12 de novembroe ele só tem 12 dias contados.

isso sempre acontece comigo

eu chego de paraquedas como num sonho e sempre caio em algum lugar causando uma luz, uma esperança ou algum tipo de impacto inexplicável.

não é como se eu fosse a salvadoradessas tétricas almas,eu não sou Jesus.

todos assistirão a minha quedacomo um anjo caídoporque não tragoum benefício infindável.

não os trago comigo também,nada além destes fumos tragados.

o vermelho ébriodos teus olhos clarosque me fitavam, sérios

as lágrimas no teu rostonão me pareciam tão efêmerasquanto às cinzas do teu cigarro.

eu não posso te salvar,mas posso tentar te fazer sorrirdurante esses 12 dias contadose te fazer mudar de ideia.

só não quero passar a sercomo as tuas cicatrizesmarcadas com faca quente.

nem como uma mancha de vinhoderramada na sua roupa; difícil de tirar.

e me perdoa

se o meu cheiroem ti

ficar.

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de mãos vazias

posso ver o meu corpoinquieto e trêmulo de ansiedade.eu preciso de algum objetopra segurareficar batendo e fazendo barulhos,ruídos, rabiscos, numa praça, na praiaou em qualquer outro lugarlonge daqui.eu sou testada quando tô sóbriae ele ainda acha o meu jeito engraçado,maseu ainda estou esperando os remédiosque me foram receitados.tentam curar o meu coração —colocam e tirambebidas e cigarrosdas minhas mãos —“não vou deixarque você se mate”.acredite,eu nãoligo.

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reverso

borboletas do cigarro

cinzas no estômago

ainda guardo o teu anel aquicomigo.

quando você vai voltar?

sem ninguém pra falar

sem ninguém pra sentir

sem ninguém pra tocar

sem ninguém

pra

amar.

não tenho nada

além dos meus versos

reversos

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Nicolas

você me trancou num labirintoe me deixou sozinhatentando te encontrar.

a minha mãe soube arrombar a tranca da portae me tirou de lá quase sem vida;

o meu coração foi jogado aos ratos.

como teve coragem de bombeá-locom essa máquina tão descartável?

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em silêncio

mesmo invadidae sugadapelas mãosdelenos meus seios,eu fico em silêncio.mesmo com o calordo toque devorandoa minha almapura,eu fico em silêncio.mesmo com o meu corpofervente como fogo e brasatentando se adaptarao medo,eu fico em silêncio.mesmo que o meucoraçãose rebata em desesperoporque nunca ninguémtão próximotinha arrancado de mimàs garrasa inocência,eu fico em silêncio.mesmo com os dedossórdidos e dissolutosque pressionavampara sentirmeus batimentosaceleradosque ansiavam parar,eu fico em silêncio.e mesmo que tenhase passado cinco anosde um abuso queainda me persegueeu continuo aqui,em silêncio.

consegue me entender?

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a olho nu

o olhar de quem não falafala mais que até me cala.

o falar de quem não olha

fala mais

até que horas?

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não vejo a hora de voltar pra casa

sentada no escurohomens vaziosme fitamcom estranheza.

estremeço a noiteolhando pro nadapensando em tudo.

dois maços não sãosuficientespra mim.

dois fracos fitandonão são suficientespra eles.

dois policiaisandandonão foram suficientes

e

as ervas não são arrancadasdas mãos das mulheresà noite.

aos 17 anosinsuficientemente vivaàs 22.

desisto.

volto pra casacomo num jato.

as ruas do mundo

das noites

das almas e

dos mortos

não são boas

pra quem não sabe lidarcom a realidade.

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o plano B

se meu peito dói, é físico.eles não entendem da necessidade que tenho de sentir, sem posse.

não conseguem se desprender das overdoses estagnadas

sem o conceito essencial

sem ligações sem sinal

sem a base vertebral

e eu aqui, querendo que os corpos não desabem ou se desfaçam entre os dedos.

onde não há vida não há sossegonesse meu eu desprendidoque não sei por onde me apego.

das desnecessárias vírgulasque não me nego a negaronde nada tem nexona vista da visão deles.

é preciso de um empurrãozinho pra familiarizar, mas não tenho por onde empurrar.

eu temo falar porque nada acontece.a honestidade é alvo de críticaspensam que é só uma forma de vitimização.

e se da fúria aos gritos desabafadostento reanimar o desânimo dos animadoseles mal vão se lembrarou vai ser simplesmenteum mal lembrado.

não preciso de uma tocapra me esconderdo que não me toca.

eu não vou pisar em entradassem portasse o que dificilmente entranão mais importa.

é, eles vão pelo caminho mais fácil não desafiam labirintos nem querem deixar rastrose esses mesmos rastros são apagados facilmente da areia nas primeiras crises de pânico.

se soubessem que meu labirinto pulsa flamejantetalvez já haveria um restante de linhas retas possíveis de entrosar,mas tudo o que encontro são labirintos incompletos sem um ponto de chegada.

— tudo bem, vamos passar pro próximo plano.

como passar pro plano B?

como chegar no maldito próximo plano e orar para que “seja eterno enquanto dure”?

mas eles se vão.

tudo passa.

tudo se esvai.

e, então, me enrosconos lençóis túrbidos daquida minha camada minha casa.

busco pelos corredores da madrugadaos arredores que me fixo em olhartentando encontrar uma resposta.

eu não preciso de ninguém aqui, mas preciso fugir urgentemente.

preciso ultrapassar os limites das fronteiras em refrigério da alma, enquanto não há mistérios que cinjam a minha ascensão.

xícara de chá gelado, camomila e passiflora vendo além dos edifíciose já consigo sentir o sopro dos ventos sussurrando através dos meus cabelos.

o frescor da madrugada me consola mais do que o ardor dos contingentes corpos alheios, mesmo que no tato dum corpo morto o gelado ainda me doa.

“por favor”, me peço, entenda.

se minh’alma é boanão é certo continuarpresa ao corpo.

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100+

parei na busca o trânsito.ó trânsito que percorre em ligação de uma ponte a outratuas veiasminhas veiasem congestionamento.

ó trânsito que desconhece pelo menos por algum momento que o anseio que faltaé a vontade de estar perto.

na minha carteira uma identidadena tua identidade, os meus restos.

como os restos das minhas cicatrizes descuidadas, que, por ti, são endeusadas.

como tuas mãos amassando nas dobras de cada esquina, minhas curvas.

minhas ruas seminuas encharcadas de suor.

te ouço saindo pela porta e fico por um momento na esperança de tu voltar

mas chove aqui dentro,aqui dentro do meu quarto.

agarro a minha bike e te sigo pelas ruas escuras, esperando passar.

minhas ruas seminuas encharcadas de suor.

ó trânsito que no fim do túnel supera todas as minhas infrações que não sejam os porquês de eu amar você

e sem querer deslindar essa inexistência de razões que uma infração me trazde merecer o bem que tu me faze reconhecer que é só mais uma mania que tenho de te ter.

mas eles dizem que milhões de ações mal faladase bilhões de acertos não lembrados não mais importamporque minhas falhas ininterruptas afloram na tua epiderme a rasgose eles não entendem por que ainda sou endeusada

se tudo o que faço é estrago

se, na falta, busco sentir algo

se, na falta, busco sentir algo.

ó pobre irrequieto amaldiçoado pelo amor

me agarra pelos braços e me espanca nos espaços coléricos de convivência, porém inóspitos.

nós sabemos que ainda conseguimos viver.

ainda conseguimos inspirar e expirar o oxigênio de pulmão pra pulmão no fundo do oceano, passando de um para o outro o único gás carbônico que sobra.

sabemos que o amor não retrata os loucos em desespero.

é a calmaria após a pior parte do desespero que retrata os loucos de amor;

das horas em que acaricio os teus pelos e absorvo pelos meus poros os teus apelos e suor.

ó pobre irrequieto que me aguenta por anossustenta os meus danos me chamando de amor.

ó pobre irrequieto —dos olhos arregalados daquela noite —que me viras ofegante da voz trêmula e alquebrada,olhos ébrios pós-choro,que me deu um abraço e falou:

“quanto amor!”

por segundos eternossentindo o meu soprosem fôlego no cangotesem mais. sem dor.

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ênfase ao descarte

deslocando os pés a passos largoseu corria para atender ao interfone.hoje temo ouvir sua voz outra vez,como se eu fosse aquiescer uma nova atrição na qual eu juro me enganar.

agarrei teu presente que eu tinha comprado e o embrulhei,colando mais algumas fitas de durex pra me certificar de que a embalagem estava visualmente agradável pra você.

sem querer me embrulhei junto a todas as inseguranças que me acometiam e me vi inerte.

desculpa se eu não te dei o presente, eu não senti como se você se importasse.

há quanto tempo eu não te via aqui comigo. sorrindo.

há quanto tempo eu não ouvia o som de outras vozes. falando.

vozes que, como uma música, sobressaíam a cada nota.

teus Dós que me induziam a cada som enquanto tu me fazias Sol .e era no Lá que eu me viciava ao seu lado.

pra quem vou contar meus segredos incógnitos jamais revelados?pra quem vou contar os porquês que não sejam você? aquilo você se fez ser?

você sepultava minhas lágrimas porque me sentia,e num sono, abraçada, esperava eu me acalmar.

garota, como eu te amoeu te odeioeu te amo

Onde você está?

em outras paredes

em outros lugares

em outras palavras

em outros andares

noutros passatempos

enquanto o meu passatempo era te olhar adormecida pelo pouco tempo que tinha.e a inquietude que te virava de costas sobre a cama era a única coisa que me adormecia.

quais rótulos resumiriam uma janela indiscreta, onde a beleza e a superioridade intelectual é o que mais te interessa?

quais sonos te fariam despertar das coisas menos importantes?

quais sonhos te fariam lembrar do que já esqueceu?

quais sonos me fariam esquecer do que já aconteceu?

quais pesadelos poupariam esse meu eu desconexo

de que foi além da ferida que me doeu?

quais sonhosme fariam voltara sereu?

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vazio

a exibição desmesurada e desmoderada de uma intelectualidade, expressa profundas lacunas em entrelinhas que se despedaçam inquebráveis.

são só homens ébrios cambaleando sem sintonia.

vencedores fraquejando no que decidiram ter falhado.

são cegos temperados de incertezas já vistas antes.

(e antes que tudo desabe, eles se curvam ao passado).

mas passado já é passado; mudança adiante.

são mulheres preparadas para demonstrar despreparos.

são homens com habilidade em apontar dificuldades.

são pessoas idênticas falando que todos são iguais.

são sugadores de energia desprovidos de paz.

são obsessores frustrados pelo excesso de ego.

são seres contaminados em forçar desapego.

são impostores fingindo se queimarem no frio.

diga-me como te exibes

e te direis qual é o seu vazio.

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química nociva

te vejo mais como um produto escasso e corrosivo em bando.como animais quadrúpedes e ferozes andando em inércia; inanimados e sem valor.

porque você amava atacar no modo de caça predatória.colocando em extinção pela distinção dos seres inócuos que te queriam bem.

eu já paguei caro pra te ter raro.

eu, em pele vivae tu, ácido corrosivo que não restou nenhuma gota.

já te bebi insípido, lembra?

mas ontem te vomitei sem dor, porque já não te sintoe não foi fácil descartar um suco obsoleto.

te quis raro, absorvendo todas as imperfeições da tua alma.

mas que alma tinha o que só me corroía?

eu quis te matar como uma prova de amor.

bem, você não quis morrer comigovocê não quis encostar um dedo nos meus ácidos clorídricos, porque sabia que os teus ácidos sulfúricos me dissolveria toda.

mesmo que só respingasse,eu fui burra e te bebi à força.

eu não morri por ter coragem,e tua escassez não durou,por ser covarde.

vejo sepulcros aos escombros, porque não restou mais nada além de corpos cadavéricos aos destroços do que um dia foi vivo.

era fácil tu me fazer rir, mais fácil ainda me fazer chorar e eu tinha que engolir o choro pra não me esgotar.você não enxergava isso.

te presenteei um binóculo e você não sabia o que dizer sobre a paisagem. era um cenário melancólico.porque no mundo cinematográfico você só via ação e ficção e eu consegui te assistir até nisso.

se houvesse um pingo de sentimentalismonum cenário clássico, você não choraria.

nem sei se teria a possibilidade de se desbotar em lágrimas.

teu signo de virgem talvez tenha intolerância a desbotamentos.

não se permite mudar de cor por medo de não existir cores.

talvez teu preto e branco seja uma obra-prima.

talvez você ficasse no mesmo estágio do filme Psicoseporque como Norman Bates, eu não te entendo.

talvez você sinta demais e se esconda.

talvez você sente demais por não sentir nada.

e se existisse cores dentro de ti, eu iria querer sentir, ver e me tingir.

mas as minhas cores eu te dei e a reação química não foi uma das melhores.

nos teus ácidos existem cores

e nas minhas cores...

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um ponto cego

os afetos em retalhos, são somente emoções desprezadas por um coração de falsos sentimentos.

porque não se recua se tenho novos vínculos,e não tolero suas metades quando me tenho por completo.

o egoísmo corta laçose o corte não é de afeto.

quem sou eu para ditar as regras emocionais, quando não existem regras?

não existem regras, limites, retalhos, nada.nada que não seja sentir e demonstrar,por verdades.

retalhos não são detalhes.nem se recuam para longe.

talvez você descubra o que é amartalvez você descubra o que é se importare oro para que não seja da pior formaporque me importo e te amo da melhor forma.

até me envergonho em dizer que amo, porque é como se eu estivesse falando com paredes.

mas até as minhas paredes são mais sentimentais que vocêchoram. mancham. escorrem.

te bebo insípido cuspindo goela adentro ao coração.seria mais fácil vomitar,mas está tudo aqui dentro –emoções e sentimentos vinculados a um só eu, que se deixa maltratar –porque amo sem ter nada,até parece uma piada.

por isso, sinto.

sinto muito te amar e te fazer lidar com o fato de ser amado.parece ser difícil pra você.se pego um espelho e te faço olhar para o que vê, vai olhar para mim; aquela que segura o espelho.

você não vai se olhar, porque não consegue.mas vai me olhar sem enxergar, porque sou seu ponto cego.

você choraria ao ver minhas artérias esmagadase eu, me transbordando no meu próprio sangue.

porque sou tão sangue quanto você.

mas nem com uma lupa você conseguiria ver o miocárdio e as artérias do meu ser.

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recuar, recuar…

o meu corpo tem pegadasmarcam quando sou pisadae se alastram como um nada.

é um passo para tráse uma pegada à frenteacima do que sinto

do que falo

do que pinto

me vejo doente.

se meu corpo é labirintosempre é fácil recuar.

se bloqueio o que sintoo difícil é me curar.

mas só me curaquem me sente,

e que amorme tem pra dar.

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se a chuva vier, vai ser de saudades

vi teus olhos tingidosde vermelho-brilhante,lacrimados e tristes.

eu não podia te tocar

não podia te abraçar

não podia te sentir

nem podia te beijar

e não fazia ideia de como é difícil amar distante.

ver a dor nos teus olhos e não poder me derramar com eles através de um beijo.

não poder unir as lágrimas e a saliva à procura de consolo.

nós seguramos o choro com as mãos cansadas

mas não consigo segurá-las agora.

minhas mãos estão vaziase machucadasonde eu preenchiaas tuas mãos nas minhas.

consegue ler nas entrelinhasque eu não consigo ficar sozinha?

eu não vivo sem te ter.

agora

amor

é você na sua

e eu na minha.

mas os nossos corações continuarão interligados.

não é coincidênciao amanhã estar nublado.

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uma boa forma de atar os laços

ele me acorda com uma ligaçãoimitando comicamente a voz de um vendedor qualquer.

“para, Gustavo, eu sei que é você!”

é, eu sei que é você.

eu conheço cada pulso sonoro da sua voz

em todos os tons, em todos os contrastes

em todas as distorções fonéticas que soam como uma música.

me vi sonolenta e com raivae disse: “o que que tu quer?”

o que

você

quer?

eu estava dormindo.

“oh, meu amor, só quero conversar”, respondeu.

conversar?

eu não estava a fim de conversar.

o meu corpo me puxava de volta pra cama e eu ainda tinha que falar,

e eu sei que ele não tinha muita coisa pra falar, parecia que ele estava no centro da cidade ou algo assim.

“vou dormir, amor, você me acordou”, falei.

“tudo bem, então… beijos, tchau.”

“beijos, tchau!”

desligo o telefone.

na cama, percebo que o vendedor que ele imitara

era um atendente de uma loja de joias.

ele me disse que eu tinha encomendado um anel.

era um anel de noivado.

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espinho

minhas costas nuasse contorcem para frentesentada sobre a cama.

mais um novo dia notívago e deplorável que vem como um peso que me funde do sólido às mais notórias desistências; num impacto factual.

um pacto de cárcere que já se vê em vísceras.

não me lembro de quantas coisas foram perdidas nesse passar de tempos e de anos.

quantas coisas me afundaram e me restringiram de respirar.

não me lembro de quantas letrasnomes e pronomes, desconcertadoseu deixei elevar num tudo tão uniliteral.

é só mais um motivo pra eu não me lembrar.

eu me agarro aos espinhos, culpando as farpase, como se não bastasse, eu desconto a minha raiva nas rosas.

porque eu tenho um espinho fincado no peitoe a retirada é dolorosa e vazia.as ondas escorreriam junto à cachoeira dos meus olhose eu não conseguiria me suster na correnteza.

eu amo o espinho e não sei qual seria o meu fim sem ele,porque sinto medo,posso me afogar.

mas estar com o espinhoé como estar nas profundezas do oceano e mesmo assim poder respirar,mesmo não respirando.

meu espinho é o cais que me abriga.

se pulo, morrose mergulho, tu cais

mas não sou capaz de te mergulhar.

e nem sei o que eu seriase não tivesse o que fincar.

mas talvez um dia

eu me finde.

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o meu contraponto é um homem frio

ele entende o meu ponto.

um ponto falso e desentendido.

porque sempre coloco as minhas emoções fronteiriças

a um só indivíduo.

que nem de ser se faz, pelo dever de me entender

como se eu estivesse distante de qualquer entendimento.

mas entender não é dever.

é só um ponto subentendido.

falso. desprendido.

aos poucos sucumbidos por contrapontos indefinidos

e o meu eu aqui, correndo atrás, desprevenido.

no aguardo de uma mera afeição ilusória

e se eu o questionar, já é outra estóriamasnão que eu o questione.

o meu medo é maior e ainda não tem nome.

já chorei quando anoitece na frieza que entristece.

já chorei por ter clareza na fissura da incerteza.

e mesmo assim

abandono as minhas forças sobre a mesa.

forças que me fitam, tristes

enquanto escrevo poesias

como se me fortalecesse.

mas é só o que me deixa menos doente

na vista dos que jazem ausentes.

e, no fim, eu que sou a culpada disso tudo.

eu que tenho que lutar contra os meus sumiços e me esforçar.

mas se eu continuar erguendo uma amizade sozinha

não vai ser novidade

quando desabar.

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imprensada entre paredes

hoje as minhas paredes choram

pensava que era pelo fracasso

só mais um choro divulgado

se preenchendo no espaço

espaço escasso e desregrado

maldita rima inevitável

me deixe escrever em paz

talvez um corte

.

.

incapaz

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pássaro maldito

e foi assim,como um dado perdidoum cadarço rasgadoum trago esquecidocomo um nadanada que faça mudar o agora.o Paulo é o únicovocê sabe bem disso, sempre soube.

por que você dizia que se importava?por que me fez acreditar na tua palavra?

você tem um resto meunão posso arrancar de ti agorae sei que não posso nunca.

não posso arrancar daquido sorrisode mimdaquido cabelodo maldito pássarodos dedosdo sorrisodo silêncioda músicado olharde mimde ti

deti

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fecha os teus olhos

seus passos falhosperdem-se constantemente;

brincam de esconde-escondeonde um vazio é encontrado.

as palavras ditaspassam por cimado que deveria estar calado.

silêncio

um ato condenado.

há um dedo que apontae o outro desconta

nada vem em contado quanto já julgou?

bélicas pontas de dedode quem aponta um lápis

que se quebrou na ponta,mesmo sem cor.

e o que restou?

a raiva?

o lápis?

ou as palavras que soltou?

nada.

abra os teus olhos.

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vênus

“vamos pro inferno”, eu dissetentando ironicamente amenizaro que os anjos errantes tinham feitosem ter pecado.

porque nós não iríamos pra láera simplesmente uma quebra de leispara um porto seguro efêmero.

nada nos cessavanada nos era pregado; era puro.

um prego tortonão se sustenta na parede.

mas eu tinha um marteloe poderia quando quisesseendireitar esse prego torto.

o prego serviria de qualquer maneira,poderia ficar intacto quando eu quisesse.

mas nós não éramos somente um prego,muito menos uma simples parede.

nós éramos O Nascimento de Vênus, o martelo, a parede, o prego, a moldura e o observador

juntos estávamos seguros.

vamos pro inferno, pensei.

os céus, por nós, celebravam.

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amnésia

despedaçavam-se os passoso chão rachava meus traços.

e meus pedaços, onde estavam?

foram perdidos com o tempo.nada restou. nada restava.

o triste lânguido alvor que vez ou outra falava,havia se proliferado por dentro e me agonizava.

tudo era muito injusto

eu vendi a minha alma diversas vezes,mas ninguém nunca entendianinguém nunca pensava

e por amor a mimeu me fechava

eu me tranqueieu me trancava.

cerrei nos lábios o que antes falavaexpus nas prosas o que antes gritava

e foi assim que tudo começoufoi na dor que eu recomeçava.

com o psíquico danificadodos meus erros eu me lembrava

esperava melhorá-los, jurava.

mas as memórias boas que foram esquecidasas memórias boas que eu não me lembrava.

merda, era pra eu me lembrarmas sou eu que não lembro de mim.

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ele

por eleaté escrevo nas estrelas

deixo claro que…

droga, não consigo explicar.

é tão indulgentee sabe fingir tão bem que não é; mas é

mal de Gêmeos

se bem, um bem.

por ele escrevo nas estrelas o que não se escreve naquilo que brilha.

seu exagero metódicovem a abarcar no (in) mais sintetizado possível.

e é impossível disciplinar a liberdade que se move freneticamente dentro dele.

o mais intenso canto aos surdose ninguém consegue não ouviro que ele tem pra falar.

o mais intenso encanto aos mudose ninguém consegue não falar o que tem a expressar.

eu tão muda

desinteressada

surda

não me convém não escutar e

entender

a sua capacidade de apego e afeto espontâneonas sombras que, em mim, tímidas se encobrem.

alguns de seus amigos o abandonaram, não entendoporque quando ele vem como um abraço, tudo se iluminaas sombras fogem com medo; temem a morte.

se morro, é dentro dele.sou forro, nos remendos dele.

e, assim, como um só nónaquilo que não se desfaz aos arredores, somos um só

postos em sigilo perante a lei.

nem argumentos anarquistasexplicam a liberdade que se feznas regras em desordem que quebramos em prol da ordem.

na desordem pomos tudo em ordem.

e é no frio, que logo se aquece com fúria, o quente que aqui dentro logo se umedece.

e admito,eu não resisto.

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in

me movo,

constantemente.

eu, inconstante

me rebato veemente

sem nenhum pudor ou consenso

consentindo

brevemente

a minha falta exterior.

eu, tão interna,inda me movo.

deslocando no inverno inverso(in)da que no inverso amargo do meu interior miocárdicoeu não me “alter(ni)”.

no inferno eu me altero

no inferno eu me rebelo

grito a deuses inexistentesque em órgãos se proliferam.

ouço adeuses proeminentesdentre os meus bolos histéricos.

mas inda me movo.

eu me movo e me movo.

não durmo; me movo de novo.

penso; me movo.

lembro; me movo.

escrevo; me movo.

choro em silêncio; me movo.

a solidão não pede socorro.

meu inverno é interno;inverno externo eu corro.

no interno, eu me enterrose não me movo, eu morro.

o depois não rima e nem tem poesia

eu me movo em inércia

e não quero saber o que acontece na ausência.

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utopia cristã

eles se disfarçamatravés de Bíblias

mas não se negama olhar uma bunda despida.

eles aplaudema belezae a sutileza pura e nua,

aquilo que costumam chamar de tesãosem nenhuma afeiçãoao que a Bíblia insinua.

depois saem pregandocom suas máscaras imundas

mostrando ao povo sua falsa primaziapela sagrada supremacia da Bíblia.

Bíblia, que nas mãos deles é muda.

gastam seus suores amargos

movendo suas pernas peludas

enquanto suas vozes, fajutas,tentam preencher vazios insupríveis

como num livro de autoajuda.

ajuda?

o que eles querem é preenchero vácuo dentro de suas bermudas.

mas o que eles não sabemé que nos portões de alarde

todos

eles

são

Judas.

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ele me trancou e ainda jogou as chaves pela janela

me traga um poucoenrola com a ponta dos dedosnas sedas dos meus cabelos.

não se iluda, não diga,não minta para si mesmo.

pacifique-se no meu pacífico e incoercível coração.

me abraça no colchãopenetra a minha almae me acalma

em nossa bélica distinção.

olhe em meus olhos

f i x a m e n t e

como se fosse a última vez.

me bagunça de veze me arruma aos poucos

inspira os esboços da minha nudez.

me deixe livre e puraespia através da fechaduraem literaturado teu coração

e abra a porta

l e n t a m e n t e

consolidando a conexãome trancando em você.

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malmequer

há uma cóleraque flameja no meu peito

como gás rarefeito

que me deixa assim, perdida

encontrando meus defeitosdo porquê eu te afagarnas minhas noites de inocência.

essa condescendênciaque me ridiculariza

mesmo tendo a consciência do que me traz coriza

e de quem me faz chorar.

chorar, sem ao menos saber o porquê.

afagar, sem o teu amor eu ter.

o que você fez para mereceresse meu raro sentimentode amizade querer ter?

nada.

você não é tanta coisa,eu também não

mas costumava te considerarcomo um irmão

pois eu sou pura,o meu coração é

tenho inocência de criança,mas ainda sou mulher.

no bem-me-quere malmequer

eu não soube brincar

e nem te digo que pétala é.

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raios castanhos

numa constelação de gotas d’águaque se estabelecem em minha pele,há o mais asseado reflexo do céu.

sinto a calma

e é na ira do caosonde meu corpopermanece imóvel e frio;

minha mente queima.

meus pelos se arrepiam e dançam debaixo d’água

como na serenidade eternado teu toque nos meus…

raios solaresencontram os meus olhos

o sol não brilha sozinho

ele se mantém e se completa,fazendo com que tudo brilhe.

esse tudo,não tão especialquanto nós

nos brilha em excesso.

você, raio

eu sol

eu suo

e sou

pela intensidadede ter um poucode você.

teus dedos que registram meus versos,

meus dedos que juntam os teus restos.

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cada obstáculo, uma piada

a vida até chega a ser engraçadaporque tudo gira em tornode beleza, aparêncianúmero de contatosnúmero de amigosmídias, notíciasnotícias falsas eassim vai.

se você é reconhecidoé pela belezase você é reconhecidoé pelo estilose você é reconhecidoé pelo carisma

se você é reconhecida ou reconhecido por algo que fazo que te salva são seus números de contatose para esses estereótipos de pessoastudo fica muito fácil e alcançávelindependentemente de quem seja.

se você não tem uma quantidade favorávelde amigos ou até de pessoas que te gostam,você dificilmente vai ser reconhecido.

se você não é bonito,dificilmente é reconhecido

ou se não tens estilo,dificilmente é reconhecido

e nesses dois casoso que te salvaé o carismaou o dinheiro.

mas a pergunta predominante é:

e quando você não tem nenhum desses atributos?

— continua na próxima reencarnação.

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não me deixe esfriar

ontem me limiteipelo menos por algumas semanas,meses ou anosde querer ter o que as pessoas costumam chamar de amizade.

e numa atrocidade,que me exponho outra vez ao opróbrio

o que sempre costumo deixar que aconteçatendo em corpo um coração.

abandono aquela misantropiaque me livra de tudo e de todos,

não deixando um pé atrásnem dois

eu simplesmente vou com tudo

esquecendo que cada impactogera uma reação

e é na reação onde eu me impacto.

mas dessa vez foi diferente,nada foi impactante onde me dói

não sei dizer se ainda sinto,mas já assinto a inércia do que me corrói

e o sentimento que para tideveria ser dado.

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suor

não me importa de que maneiratuas frívolas concepçõessão avultadas em mim

na minha aparência

no meu ascendente

no meu ser falho

que nas folhas vagas do inverno,murcham

mostrando-se visível

em cada galho efêmero

estigmado em mim

pois minha alma simples

zarpa constantemente

destes subterfúgios

idealizados e praticados

por você em público.

eu sou quem sou no recinto,

a cada janela aberta

que jaz por aí

em meus corpos subterrados

de poro

em poro.

me deixe transpirar em paz

só não me obrigue a enxugar o teu.

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poesia deprimente pra gente demente

ah, se eu tivesse a chance de te petrificar

pr’eu poder falar nos teus ouvidoscomo cupins que corroem

durante o percurso

perscrutando lentamentea verdade que dói

mas só falo pro papelo que dói, na verdade.

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o quarto

no meu quartoem que me façodias e noites em pedaçosnão deseje criar laçosnem invada o meu espaçonem se falta um abraçonem em fogo um amassonem de gritos com repasso.

de madrugada uma ilusãoem travesseiro se amassade manhã uma contraçãoem meu anseio eu me refaçae talvez eu me refaçapassando a noite em uma praçamesmo eu sendo um fracassoem minha mente sem compassoque não consegue dar um passosem deixar algum mau rastro.

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infinitas impossibilidades

são múltiplas as faces que guardo na manga.escolha uma, enquanto ninguém eu visto.

não invisto nas imposições gregáriasque rasgam pálidas como papel,sem cor, sem céu

sequer o troféu ordinário que possuo,empalhado, ermo e infértilna estante do falo e do tempo –o dente virando a carnee eu, raposa de nove camadas,arisca, estrangeira e depravada,le feu follet dos ventos.

a máscara me olha,sorrindo, e faz moradanum vão da janela,da lenha, da palha

invadiu hiatosembebedou-se das paredes da casadepois vomitou-me calabouçossujando meus sapatos.

sou filha da água,oceanos matam a sede de mimalgumas vezes ao dia.ouço — queimem os navios!não atrapalho meu naufrágio.

meus braços, madeiraeu, porta. toc-toc –escancaro-me do avessono meu próprio Âmbar.

na fresta mais tímida,as faces do ventoespiam-me de voltada sala de estar.

do horizonte que sou,eu o pego, teçoe enlaço, vermelho,num dedo mínimoe o deixo sangrar

rubras correntezas de ouro.ouroboros.

aqui agora acolá

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