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Ambra Marques

poesia

demônios à parte

eu já conversei com alguns demôniosporém, em um círculo arcano — nem tão perto, nem tão longemas próximo o suficientepr'eu poder vigiar seus pasos.

vez ou outra, em trocas de ideiasaté compartilhamos experiências.

admito admirá-los em certo pontopela lábia, pela precisão com que adentram meu círculoremovendo peça por peça, desmembrando laços como se fossem oferendas inefáveis.

eles possuem o dom inato de expurgarvermes do meu recinto que em nada agregariamsem ser necessário algumcomando; só os deixo agir

pois não só de "demônios" são chamadossão astutos, porém ocultos sob mantos erraticamente empoeirados —encharcados com um invólucro de sombras primordiais, tão repugnantes que violam até os éditos das trevas —e seguem o fluxo natural de dilapidação convocando o caos como um rito necessário.

vez ou outra, o ego me sussurra maus presságios:"ser-lhe-ão feitos atos ameaçadores à sua reputação"mas que reputação vale ser zeladapara aqueles que nada me dariam?e será que preciso mesmo de algoalém de um amor que se reverbere?,pois este já tenho, e não mais preciso

e àqueles que não souberam darora, ora, serão ceifados pela tempestadeaté sobrar apenas escombrosde memórias perdidas e súplicas.

veja bem, curiosa serpenteque denota seus charmesentoando rastros fétidos e fantasiosamente apocalípticos

saiba que não sinto, nem faço questãode suas mazelas engenhosasque ameaçam tirar o fôlego em constriçãoassim como as correntesde um destino fadadoonde jaz meu grimório roubado.

as páginas empalidecem teu rostofrívolo, como um prato vazio e rachado tal como teus olhos apagados e fúnebres,selados ao vão de júbilo profanobeirando à degeneração.

foram feitas imposições de mãospara a cristalização pelas regressõesde outrora, que mantenho em sigilonada poético.

até ouço teus ossos rangendocomo a lombada do tomo ao ser abertoe sua pele se transformando em couroornamentando camada por camada

hermeticamente amaldiçoada em sua própria essência —escorrendo entre os dedosonde dedilho, ritmicamentena possessão do verbo.

por ora, projeto, através de um códigoa progressão dessa fagulha esvaecida e martirizada ao oblívio tragando a alma e transformando-a em cinzascomo sacrifício aos verdadeiros reispois só Eles sabem o que fazem com os restosda extensão ignóbil de um artefatocujo verdadeiro dono, nenhum peso carrega e, enquanto incólume, pouco é abalado.

assim, deixo que o mar de kshama inunde meu peito de misericórdiapara que sejas acolhida em pazem um espaço estável, como um temenos psíquico —exceto o diabólico de queda eminente no inferno.