poesia
uma boa forma de atar os laços
ele me acorda com uma ligaçãoimitando comicamente a voz de um vendedor qualquer.
“para, Gustavo, eu sei que é você!”
é, eu sei que é você.
eu conheço cada pulso sonoro da sua voz
em todos os tons, em todos os contrastes
em todas as distorções fonéticas que soam como uma música.
me vi sonolenta e com raivae disse: “o que que tu quer?”
o que
você
quer?
eu estava dormindo.
“oh, meu amor, só quero conversar”, respondeu.
conversar?
eu não estava a fim de conversar.
o meu corpo me puxava de volta pra cama e eu ainda tinha que falar,
e eu sei que ele não tinha muita coisa pra falar, parecia que ele estava no centro da cidade ou algo assim.
“vou dormir, amor, você me acordou”, falei.
“tudo bem, então… beijos, tchau.”
“beijos, tchau!”
desligo o telefone.
na cama, percebo que o vendedor que ele imitara
era um atendente de uma loja de joias.
ele me disse que eu tinha encomendado um anel.
era um anel de noivado.