prosa poética
um fio para me tecer amarga
há muito tempo que sentir aversão a pessoas deixou de ser novidade, sobretudo àquelas criaturas diminutas —, bichos de patas trêmulas que se erguem de quatro para dois, pensando que a verticalidade os aproxima de Deus — que se contorcem para caber no próprio buraco, esculpido com as unhas, como quem insiste em morar dentro da própria ferida.
é exaustivo assistir ao teatro da miséria voluntária, esse balé de desalento onde ossos dançantes multiplicam-se em estilhaços quando colapsam, demônios brotando do limiar entre terra e sangue anunciando aquele falso espanto cadavérico, sem lembrar se ainda sou aquilo que atravessa esses ventos mortos em torpor ou se sou apenas travessia.
você oferece um fiapo de luz pra sustentar aquele colar de crânios, e a criatura, coadjuvante de si, imediatamente o transforma em cinzas, puxando o peso de alguma tragédia calcificada, queda que sussurra por Éons. não suportam a leveza; precisam encharcar tudo em melancolia barata. tropeçam na própria sombra até vesti-la, como um espelho negro e ancestral, e ainda assim querem aplausos de quem sequer se fez plateia.
e enquanto ainda engatinhavam, o meu pensar já ecoava ateando fogo com pedregulho, fazendo lume com os dedos e riscando em paredes abissais, mãos calejadas, alma lapidada a ferro quente, o ar preso nas garras de um urso-reflexo de mim, perdida no eu, naquilo que nunca fui, e nunca me lamentava.
não suporto pobres coitados. da última vez que um desses cruzou o meu caminho, deixei que o próprio azar o encontrasse. há coisas que já nascem tortas e condenadas quando o solo é estéril de si mesmo; basta um sopro, e tudo se desintegra sem nenhum aviso.