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Ambra Marques

poesia

dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos

como o sol encostando nos relevos áridosdas dunas desse céu, que desaguamno oceano azul-gradiente dos teus olhos

viajando ida e volta na retinadesabrochando como pétalas de rosaum reflexo espelhando ummiocárdico horizonte flamejante

vivo, rubro, de dois sóis.

dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos

como aquela foice que amola na ponta da línguaceifando o ar entre as palavrasque se desencontram nas curvas do teu corpoentre os pelos que se arrepiam ao toque

quando me sentes suspirar.

e, de olhos fechados, sinto-me extinguircomo o último expiro do ar que te respiro.

dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos

como quando arrancas da minha voz, pássarospara que o canto seja mais bonito

e, livre, sinto que as penas são apenas a lenhade lares tão distantes e divinos, onde as chamasse dispersam pelas artérias destes membros amarrados, enroscados e dançantes

ferventes como brasa

tal como as luzes vermelhasdas paredes do teu quarto

cautelosamente, formando laços e nós, invisíveis, como armadilhas

mapeando toda a estrutura

para que não se desalinhem epor um tropeço, desabem no caos.

dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos

e eu sei que não os consigo expressar,pois, antes mesmo, antecipo quecongeles as memórias dos meus lábios petrificados

horrendashorrendas e malditas memórias póstumas.

faço esse sacrifício para que, tal como Sísifonão precises carregar o doce peso da minha morte nas costas — pois é explícito que somente eu, e euesteja destinada a carregar este fardo.

eu sei que no meu peito morrem estrelas, e mais estrelasde sentimentos não expressos

mas quando acessares minh’alma e as virespor favor, não digas que as assassinei por pura vaidadenem penses que, como um contador de estrelas eu queira roubá-las todas para mim —

elas aguardam ansiosas a tua chegada.

devora-as da circunferência das pupilas da tua almacomo um buraco negro

e, enfim, diz, no entanto —na hora, agora, e enquanto —me consomes por inteira:

"em qual de nós, minha luz não consegues escapar?"