poesia
dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos
como o sol encostando nos relevos áridosdas dunas desse céu, que desaguamno oceano azul-gradiente dos teus olhos
viajando ida e volta na retinadesabrochando como pétalas de rosaum reflexo espelhando ummiocárdico horizonte flamejante
vivo, rubro, de dois sóis.
dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos
como aquela foice que amola na ponta da línguaceifando o ar entre as palavrasque se desencontram nas curvas do teu corpoentre os pelos que se arrepiam ao toque
quando me sentes suspirar.
e, de olhos fechados, sinto-me extinguircomo o último expiro do ar que te respiro.
dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos
como quando arrancas da minha voz, pássarospara que o canto seja mais bonito
e, livre, sinto que as penas são apenas a lenhade lares tão distantes e divinos, onde as chamasse dispersam pelas artérias destes membros amarrados, enroscados e dançantes
ferventes como brasa
tal como as luzes vermelhasdas paredes do teu quarto
cautelosamente, formando laços e nós, invisíveis, como armadilhas
mapeando toda a estrutura
para que não se desalinhem epor um tropeço, desabem no caos.
dentro do meu peito morrem estrelasde sentimentos não expressos
e eu sei que não os consigo expressar,pois, antes mesmo, antecipo quecongeles as memórias dos meus lábios petrificados
horrendashorrendas e malditas memórias póstumas.
faço esse sacrifício para que, tal como Sísifonão precises carregar o doce peso da minha morte nas costas — pois é explícito que somente eu, e euesteja destinada a carregar este fardo.
eu sei que no meu peito morrem estrelas, e mais estrelasde sentimentos não expressos
mas quando acessares minh’alma e as virespor favor, não digas que as assassinei por pura vaidadenem penses que, como um contador de estrelas eu queira roubá-las todas para mim —
elas aguardam ansiosas a tua chegada.
devora-as da circunferência das pupilas da tua almacomo um buraco negro
e, enfim, diz, no entanto —na hora, agora, e enquanto —me consomes por inteira:
"em qual de nós, minha luz não consegues escapar?"