poesia
geologia da ausência
no altar do gnomo, a putrefação segue um ritoque antecede a memória. outro rito esse, que apodrece o que digere com a paciência de algo muito primordial.
eu o deixei.
o olfato para de medir quando o corpo já habita sua própria ausência.as plantas, nesse intervalo, negociaram sozinhascom o que restava de luz.
uma vela. ossos recolhidoscom o cuidado que se tem por coisas que já cumpriram sua passagem, antecedendo a própria ação.
não interrogo a memóriasobre quem foi ou como fez.talvez o sonho dentro do sonho dentro do ser que me sonha, tenha se encarregado disso.talvez talvez talvez.
tal-vez a chuva marejou com sua urina indiferente.o que ficou era matéria sem pretensão.a forma mais honesta de todas as coisas.
ele chegou.
a água nas mãos dele tinha temperatura de coisa viva, e enquanto o vapor subia com a música,ouvi meu nome pronunciado de um ânguloque meu próprio corpo desconhece.como se alguém tivesse encontradouma janela solitáriano cerne que minha rocha desconhecia.
às vezes sou calcário.
ele não recua; cartografao que a pedra sedimenta,o que a inércia preservasem querer.
e eu dancei.
de algum plano ligeiramente acimado meu próprio corpo,a garganta abriu algo sem taxonomia;as mãos traçaram rotas que não reconheço como minhas mas que, no entanto, me pertencem.
e ele, plateia de uma só, bateu palmas com a convicção de quem assiste ao irrepetível,e sua voz chegou como camada novasobre um afresco que eu pensava encerrado,
algum estrato que havia sedimentadoem silêncio muito anterior a mimfraturou sem aviso e sem consultarminha opinião sobre o assunto.
no altar do gnomo, os ossos já estão limpos.alguém os recolheu sem pressa,com o toque de quem já foi ossoe agora é pedra —acendeu o que a escuridão haviaesquecido de consumir.
não lembro quem o fez.
danço.