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Ambra Marques
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poesia

[sem título]

eu sei que às vezes a machuco quando choro.

sei do desconforto que ela sente, e quando se move irrequieta dentro de mim, mesmo sem entender o porquê disso, daquilo ou de outros “aquilos” raquíticos e “cataráticos” que não me faziam enxergar.

tudo ficou muito escuro e desconfigurado, fazendome questionar o que era real todos os dias. chegou num ponto em que eu já nem mais sabia.

findei fazendo da minha realidade o meu próprio inferno, e eu, muito seletiva, sempre apontava para a morte achando que era algum tipo de inimiga.

porém acabei amando tanto a morte a ponto de mudar, pois foi ela quem me criou. ela que me mostrou a essência de cada corpo, e que dentro de cada corpo existia um ser.

foi a morte que perdoou todos os meus pecados e que do barro me fez existir.

aos poucos ela foi se tornando aquilo que costumo chamar de deus, que de sua onipresença sempre esteve aqui —, cautelosamente espionando e moldando o maculado — dentro de mim.

e em todos os espaços coléricos em que eu me encontrava, era somente deus que eu enxergava.

talvez por ter visto tanto esse deus, acabei enlouquecendo e o chamando vida.

e, assim, quando a vida chegou ao fim, morri. me tornando aquela coisa que de início eu apontava e julgava, diferenciando de mim. essa morte sem fim.

e eu, vi a vida passando e parando de me dar respostas.

eu a vi se esvaindo em frente aos meus olhos porque, de certa forma, eu não havia valorizado — deixando marcas e rastros sórdidos por onde trafegava —

e fui assassinando lentamente as cores que nela existia, pois eram exatamente em mim que faltavam.

e agora que te perdi, sei que tu jamais voltarias

a afagar esses membros podres e mutilados.

desvencilhei-me dos sons, das cores, das purpurinas azuis, das flores, dos planos, das dores e daquilo que valia a pena lutar.

e me deitei dentre as velas claras deste santuário insólito como um monólito indissolúvel que me invocava cessar,

sendo esquecida pela vida erompendo os laços com as mágoas:

“Violet, prometo nunca mais te machucar”

onde a vela se consume e a chama se apaga.