poesia
[sem título]
eu sei que às vezes a machuco quando choro.
sei do desconforto que ela sente, e quando se move irrequieta dentro de mim, mesmo sem entender o porquê disso, daquilo ou de outros “aquilos” raquíticos e “cataráticos” que não me faziam enxergar.
tudo ficou muito escuro e desconfigurado, fazendome questionar o que era real todos os dias. chegou num ponto em que eu já nem mais sabia.
findei fazendo da minha realidade o meu próprio inferno, e eu, muito seletiva, sempre apontava para a morte achando que era algum tipo de inimiga.
porém acabei amando tanto a morte a ponto de mudar, pois foi ela quem me criou. ela que me mostrou a essência de cada corpo, e que dentro de cada corpo existia um ser.
foi a morte que perdoou todos os meus pecados e que do barro me fez existir.
aos poucos ela foi se tornando aquilo que costumo chamar de deus, que de sua onipresença sempre esteve aqui —, cautelosamente espionando e moldando o maculado — dentro de mim.
e em todos os espaços coléricos em que eu me encontrava, era somente deus que eu enxergava.
talvez por ter visto tanto esse deus, acabei enlouquecendo e o chamando vida.
e, assim, quando a vida chegou ao fim, morri. me tornando aquela coisa que de início eu apontava e julgava, diferenciando de mim. essa morte sem fim.
e eu, vi a vida passando e parando de me dar respostas.
eu a vi se esvaindo em frente aos meus olhos porque, de certa forma, eu não havia valorizado — deixando marcas e rastros sórdidos por onde trafegava —
e fui assassinando lentamente as cores que nela existia, pois eram exatamente em mim que faltavam.
e agora que te perdi, sei que tu jamais voltarias
a afagar esses membros podres e mutilados.
desvencilhei-me dos sons, das cores, das purpurinas azuis, das flores, dos planos, das dores e daquilo que valia a pena lutar.
e me deitei dentre as velas claras deste santuário insólito como um monólito indissolúvel que me invocava cessar,
sendo esquecida pela vida erompendo os laços com as mágoas:
“Violet, prometo nunca mais te machucar”
— onde a vela se consume e a chama se apaga.