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Ambra Marques

poesia

o gato

o gato observava. bonito e peludo,se espreguiçava com as patasde quem escolheu ser bicho.

nunca humano.nunca.

rolava, brincava, se enroscavaentre as pernas.

o humano sempre agressivo, brincalhão —lutinha com as mãos.o gato gostavase irritavaazunhavagostavase irritava de novo

às vezes o ambiente não era propício.

ele via. único ente a testemunhar.nenhum peso carregava.é um gato.

esgueirava pelos cantos da casaperscrutando de longe elaperdendo o arpressionada contra o muropelo humano favorito.

nada fazia.

soquinhosmurrinhosos olhos secos vidradosnuma brincadeira sem escopo.

cochichosgrunhidosmarradasgalo na cabeçabodes. cabras.

o gato, tranquilo —nunca um bichosempre um humanosempre um homem.

elanão podia não gostarnão podia se irritarsenão mais soquinhosmurrinhosmarradasbodes. cabras.

cabras!

o gato via pássarosirrompendo voo da garganta delaesganada.olhos arregalados, anegadosazulada, sem chorosem poder dizer nada.

lambeu a patacorreu para outros cômodosquando a brincadeiracomeçava a ficarbem diferentee agitada.talvez atrás dos pássaros.

esses humanos sabem brincar?

em outro cômodo,lambeu mais uma veza pata

Rrrrrrrr

ela está sozinha.olhos deitados e pesados.o sal escorrendo litúrgicopela face de quem se adaptara a não fazer barulho ao sangrar.

devo me aproximar? talvez,mas só um pouquinhopra verse tá tudo bem.

abdicou de ser gatopor alguns minutos,foi humano. viu.

lambeu o saldos olhos dela,depois voltoua ser bicho.

nunca humano.nunca.