poesia
o gato
o gato observava. bonito e peludo,se espreguiçava com as patasde quem escolheu ser bicho.
nunca humano.nunca.
rolava, brincava, se enroscavaentre as pernas.
o humano sempre agressivo, brincalhão —lutinha com as mãos.o gato gostavase irritavaazunhavagostavase irritava de novo
às vezes o ambiente não era propício.
ele via. único ente a testemunhar.nenhum peso carregava.é um gato.
esgueirava pelos cantos da casaperscrutando de longe elaperdendo o arpressionada contra o muropelo humano favorito.
nada fazia.
soquinhosmurrinhosos olhos secos vidradosnuma brincadeira sem escopo.
cochichosgrunhidosmarradasgalo na cabeçabodes. cabras.
o gato, tranquilo —nunca um bichosempre um humanosempre um homem.
elanão podia não gostarnão podia se irritarsenão mais soquinhosmurrinhosmarradasbodes. cabras.
cabras!
o gato via pássarosirrompendo voo da garganta delaesganada.olhos arregalados, anegadosazulada, sem chorosem poder dizer nada.
lambeu a patacorreu para outros cômodosquando a brincadeiracomeçava a ficarbem diferentee agitada.talvez atrás dos pássaros.
esses humanos sabem brincar?
em outro cômodo,lambeu mais uma veza pata
Rrrrrrrr
ela está sozinha.olhos deitados e pesados.o sal escorrendo litúrgicopela face de quem se adaptara a não fazer barulho ao sangrar.
devo me aproximar? talvez,mas só um pouquinhopra verse tá tudo bem.
abdicou de ser gatopor alguns minutos,foi humano. viu.
lambeu o saldos olhos dela,depois voltoua ser bicho.
nunca humano.nunca.