prosa poética
àqueles que sucumbiram à vida
que, longe dela, desenterravam-se da cama cada manhã, a pele lívida ainda fundida nos lençóis, e cumpriam o mínimo com a boca cheia de terra, por um amor que não tinha voz naquela distância — o de uma mãe por sua filha
pareciam gestar no útero escuro da selva dois leões de sangue único, roendo a mesma costela. só um podia nascer rei.
e, de alguma forma, após a conquista do paraíso na selva — com as presas que não mais cortavam, a carne que não mais saciava, um cantinho de descanso onde a sombra pesava mais que o Sol — percebia que o leão que fora morto para alcançar o trono era, novamente, seu irmão de sangue mais puro
e que, pelo sangue derramado, esse mesmo sangue que um dia lavara suas feridas, agora pingava das presas, escorria asfixiante pela mandíbula fraturada, e se fundia dolorosamente ao peito.
o leão sentiu o próprio pelo crescer para dentro, a pele comendo a pele, a carne que era dele e não era dele, o sol que aquecia e agora cozinhava. a juba, que deveria crescer como símbolo de força e soberania, tornava-se rígida e caía à medida que se despedaçava, enfraquecida pela debilidade. os pelos queimavam, a pele enrijecia até se carbonizar nas chamas da culpa e da vergonha.
pobre leão,tão irreconhecível, ignóbil e caquético
que até as letras que formaram a estrutura da palavra cinzas foram perdidas —,e das sobras, algo ainda rangia abafado e miúdo no próprio não-ser.