poesia
[sem título]
eu me privo, padeço e desapareçoporque não me sinto digna de escrever-te.
passei a ser uma alma sem luz a guiar
como um frasco de vidro trincado e perdidono meio de um deserto sem lei.
sem deus. sem adeus.
vazando o tempo e o sangue
que eu mesma vendi.
e me observo a evaporar na areia tórridae cristalina do deserto
me afundando movediça, sem forças pr’eu voltar a ser como era antes.
me asfixiando com cada amassar de um grãoque só se multiplica e multiplica, infinitas vezes.
amarguradamente incessante e sem misericórdia.
você não vê, mas ainda continuo ali,
sangrando por toda a eternidade.
porque foi além destas lágrimas
que me deixei derramar.
agora, acovardada, zarpo,à beira de um abismo.
mesmo que esse tempo irrealfaça com que eu aos poucos
desapareça
— como uma ampulheta no deserto.